Quando uma criança ou adolescente pode se beneficiar de psicoterapia
A psicoterapia com crianças e adolescentes tem indicações próprias, distintas das de adultos. Alguns sinais que costumam justificar avaliação profissional:
Em crianças (até 12 anos)
- Regressão comportamental significativa (volta a fazer xixi na cama, perde habilidades já adquiridas)
- Dificuldades escolares persistentes sem causa pedagógica clara
- Queixas somáticas frequentes (dor de barriga, dor de cabeça) sem causa médica identificada
- Mudanças marcantes de humor ou comportamento em curto espaço de tempo
- Agressividade desproporcional ou retraimento social acentuado
- Dificuldades de sono, pesadelos recorrentes, terror noturno
- Adaptação a eventos significativos — separação dos pais, perda de familiar, mudança de cidade ou escola, chegada de irmão
- Suspeita de transtornos do neurodesenvolvimento (TDAH, transtorno do espectro autista) — onde a avaliação é parte do diagnóstico
Em adolescentes (12 a 17 anos)
- Queda abrupta no rendimento escolar
- Isolamento social acentuado ou mudança brusca de grupo de amigos
- Sinais de autoagressão (cortes, queimaduras) — atenção imediata necessária
- Mudanças marcantes de humor, apatia prolongada, alterações de sono e apetite
- Comportamentos de risco (uso de substâncias, comportamentos sexuais sem proteção)
- Conflitos familiares intensos e crônicos
- Sofrimento relacionado à identidade (gênero, sexualidade, valores)
- Sintomas ansiosos ou depressivos que afetam o funcionamento
Método: como funciona a sessão com crianças
Crianças pré-verbais ou em fase inicial de desenvolvimento da linguagem dificilmente elaboram suas experiências apenas pela palavra. A psicoterapia infantil usa o brincar como veículo principal:
Ludoterapia
A ludoterapia (terapia pelo brincar) parte de uma premissa: o jogo e a brincadeira expressam, simbolicamente, conteúdos psíquicos que a criança ainda não consegue verbalizar. Materiais comuns:
- Bonecos, casinhas, miniaturas de pessoas e objetos
- Jogos de regras (xadrez, dama, jogos de tabuleiro)
- Material para desenho, pintura, modelagem
- Histórias e livros adaptados à idade
- Em sessões online: jogos virtuais, desenho em compartilhamento de tela, narrativa colaborativa
O psicólogo acompanha, intervém com perguntas, oferece interpretações simbólicas e introduz novos materiais conforme o trabalho avança.
Conversas adaptadas
A partir de cerca de 8-10 anos, conforme o desenvolvimento da capacidade reflexiva, a conversa passa a ter papel maior — mas raramente como a única ferramenta. Combinações com desenho, jogos e narrativa continuam comuns.
Método: como funciona a sessão com adolescentes
A psicoterapia com adolescentes se aproxima do formato adulto: majoritariamente verbal, com construção de aliança terapêutica como prioridade da fase inicial. Algumas particularidades:
- O psicólogo precisa de um tempo maior para conquistar confiança — adolescentes costumam chegar resistentes
- O sigilo profissional é especialmente importante nessa fase, para permitir abertura sobre temas que o adolescente não compartilha em casa
- Temas frequentes incluem identidade, sexualidade, conflitos com pais, vida acadêmica, relacionamentos, projetos de vida
- Em casos com sintomas mais intensos, pode haver indicação de acompanhamento psiquiátrico paralelo
O papel dos pais ou responsáveis
Pais participam de forma estruturada do processo, mas não assistem às sessões da criança ou adolescente. O modelo geral envolve:
Sessão de entrada (com os pais)
Coleta da história clínica, motivo da busca, antecedentes familiares, dinâmica doméstica, desenvolvimento da criança. Pode ser uma ou duas sessões antes do primeiro encontro com a criança/adolescente.
Sessões periódicas de devolutiva e orientação parental
Geralmente a cada 4-8 semanas, em sessões separadas das do paciente. O psicólogo compartilha aspectos gerais do andamento (sem detalhar conteúdos específicos), faz orientações sobre como os pais podem apoiar o processo em casa, e ouve observações dos pais sobre mudanças percebidas.
Em situações específicas
Quando há indicação clínica clara (crise familiar, dificuldades muito relacionadas à dinâmica doméstica), pode-se incluir terapia familiar conjunta, sempre com profissional distinto do que atende a criança/adolescente individualmente, para preservar a aliança terapêutica.
Sigilo profissional com menores de idade
O sigilo se aplica a menores de idade, com adaptações específicas para cada faixa etária. O acordo sobre o que pode e o que não pode ser compartilhado com os pais é firmado no início do tratamento, com participação de todas as partes.
Com crianças
Conteúdos específicos das sessões (o que a criança falou, desenhou, brincou) não são relatados aos pais. O psicólogo compartilha aspectos gerais do processo, indicações de cuidado e situações que demandam ajuste familiar. A relação de confiança com a criança é protegida.
Com adolescentes
O sigilo é reforçado nessa fase, pelo papel central que tem para a abertura clínica do adolescente. As exceções éticas são as mesmas previstas no Código de Ética do Psicólogo: risco iminente à vida (autoagressão, ideação suicida ativa), violência sofrida, situações em que a omissão configuraria dano grave. Nessas exceções, a família é envolvida — mas o adolescente é informado disso.
Quando incluir avaliação psiquiátrica
Em algumas situações, o acompanhamento psicológico se beneficia de avaliação psiquiátrica paralela:
- Sintomas que não respondem à psicoterapia após algumas semanas
- Quadros moderados a graves (depressão maior, transtorno bipolar, TOC grave)
- Suspeita de TDAH com indicação de avaliação farmacológica
- Comportamentos de risco à própria vida ou de terceiros
- Necessidade de afastamento escolar formal ou outras decisões clínicas que requerem laudo médico
A indicação é discutida com a família, sempre com clareza sobre o que cada profissional faz e como atuam em conjunto.
Considerações sobre o formato online
Atendimento online de crianças e adolescentes é possível e regulamentado, com algumas particularidades:
- Crianças menores (até 6-7 anos): a literatura ainda é mais limitada — atendimento presencial costuma ser preferido. Online pode ser usado quando não há alternativa local, com adaptações
- Crianças maiores e adolescentes: formato online funciona bem, especialmente para adolescentes que se sentem mais à vontade falando em seu próprio quarto do que em consultório
- Ambiente da sessão: a criança/adolescente precisa de espaço privado durante a sessão, para preservar o sigilo
- Engajamento parental: os pais precisam apoiar a estrutura (horário, ambiente, ausência de interrupções) sem invadir o espaço
Como funciona na Neurocore
Atendemos crianças (a partir de 6 anos), adolescentes e famílias em formato online. O primeiro contato é com os responsáveis, para alinhar a história e o motivo da busca. A primeira sessão com a criança ou adolescente acontece em seguida, com método adequado à faixa etária.
Quando há indicação de acompanhamento psiquiátrico (psiquiatria infantil ou da adolescência), integramos com profissionais da própria equipe.
Fontes citadas:
Aberastury A. "A criança e seus jogos." Artmed, 1992 ·
Conselho Federal de Psicologia — Código de Ética Profissional do Psicólogo ·
Lei nº 8.069/1990 — Estatuto da Criança e do Adolescente ·
Resolução CFP nº 11/2018 — atendimento online ·
Weisz JR, Kazdin AE. "Evidence-Based Psychotherapies for Children and Adolescents." 3ª ed., Guilford, 2017.